sexta-feira, 19 de junho de 2015

Moça, isso é mesmo normal?

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Duas almas livres se encontravam, ela em busca de si, ele resolvendo a vida. A felicidade dos dois causava espanto. Se amaram fervorosamente durante alguns anos, perceberam que o amor não existia mais, ela tomou coragem e foi embora, ele esbravejou: "Mulher tem que ser tratada como lixo pra não ir embora". "Você me largou pra biscatear".
"Você terminou? Ele parecia gostar tanto de você".
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Eram um casal bonito e doce, sempre companheiros.
Ele era um rapaz adorável e respeitoso... até ela assumir que o amor não era mais o mesmo e resolver terminar. Ele mandou flores, tentou algumas investidas, ela se manteve decidida. Ele fez ameaças, ela ficou apavorada.
"Coitado, não soube lidar com a perda."
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Se conheceram e trocaram algumas palavras, ele adicionou no facebook, investiu, ela negou. Apareceu no trabalho dela, descobriu onde ela morava. Ele perseguia, ela em desespero.
"É isso que dá sair com qualquer um. Depois reclama"
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Ela sempre feliz, agitada. Ele a adorava, moravam juntos, ciumento e desconfiado bateu nela pela primeira vez. Ela partia, ele perseguia.
Ela nunca mais saiu na rua desprendida e livre como antes.
"O que você fez pra ele ficar tão enciumado?"
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Casados, dois filhos. Chegou em casa bêbado, quebrou a casa. "Pára pai, por favor". Quebrou 3 corações, partiu um lar.
"É Parafrenia."
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Ele jogou uma cantada. Ela negou. Ele mandou ela tomar no cu.
"Dá pra todo mundo, depois fica de cu doce."
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Estavam em uma festa, ela esperava a amiga, ele gentilmente ofereceu companhia, sugeriu de buscarem bebida, a agarrou,  "Vem cá, eu sei que você quer". "Não eu não quero!". "Claro que quer vem cá, para de charme".
"Ah! Certeza que ela deu bola, ele não ia agarrar ela do nada."
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Ele bateu nela na sorveteria, usou o capacete.
"Alguma coisa ela fez pra ele perder a cabeça desse jeito".
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Você consegue enxergar qual a semelhança em todas essas histórias?
Todas elas são reais, tem coação, violência e um cara desgraçado que destrói, distorce, assusta, agride e invade. Em todos os casos a mulher foi vítima e mesmo assim culpada.
Moça, pra cada uma das histórias que contei aqui, existem outras milhares com consequências bem piores acontecendo agora.
Não moça, nenhuma delas provocou tudo isso.
Não moça, isso não é "coisa de homem" e nada disso é resultado de amor.
Moça, a gente não precisa passar por isso, nossas amigas não precisam passar por isso, a moça que está na rua de shorts curto não precisa passar por isso, e as que lutam contra toda essa retaliação também não.
Moça, não julgue outras moças, não ajude a calar quem já conseguiu se despertar. É exatamente isso que eles, esses caras covardes e ruins, esperam de nós.
Nós somos livres, moça. E eu espero que você perceba isso o mais rápido possível.
Força moça, um dia a gente vai conseguir fazer com que tudo isso pare de acontecer.
Me ajuda a ajudar outras moças?
Espalhe sororidade por aí.

Sororidade: Se refere à irmandade entre mulheres; Pacto de lealdade entre mulheres.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Lugar nenhum

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Lugar nenhum me cabe...
Meu estômago revira.
Minha cabeça atordoa.
A madrugada é tormenta, o ardor me confunde, do frio ao fogo - Meu sexo atrofia.
Descartada, a solidão não me basta. 
Liberdade estrangulada - garganta sufocada.
Meu corpo estremece, meu sangue pulsa - Meu sexo grita.
Meu olho dilata, minha vista embaça - Eu entorpeço.
O vômito me encanta - Reviro do avesso.
Rastejo - A vida me escapa.
Desfragmento e desfaleço, sobrou morte para amanhã.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Valentina

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Valentina sempre foi uma menina doce, de coração gentil, sensibilidade aguçada, sorriso fácil e choro incontido.
Embora carregue uma grande coragem no nome, nunca foi uma criança valente. Tinha medo de mertiolate,  de escuro e um pânico aflitivo da solidão - mesmo conseguindo ter só um único amigo por vez.
Nunca entendeu como era possível ter uma amizade verdadeira com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Ter um amigo desprendia tempo, entendimento, reciprocidade, sincronicidade e algumas brigas...
Em uma das discussões com sua vizinha e melhor amiga levou uns tapas. Fora a primeira vez que isso tinha acontecido, era a primeira vez que Valentina sangrava por dentro, não pelos tapas que levou, mas pelo tapa que revidou, "Larga de ser boba, menina. Volta lá e revida", aprendeu.
Logo ela que nunca fora uma grande jogadora ou uma exímia conquistadora de espaços, pelo contrário, era invisível para a maioria e sempre teve um certo azar no amor. Não só no amor romântico. Nunca se sentira correspondida, nem pelo amor que sentia às coisas, nem pelo amor que sentia pelas pessoas a sua volta. Nunca houvera uma reciprocidade que chegasse aos pés da intensidade do carinho que sentia por todas as coisas que habitavam sua vida.
A adolescência chegou e com ela todas as frustrações e choques de realidade plausíveis de uma adolescente. Se quando criança era uma garota sensível, na adolescência todos os sentimentos doces de Valentina ficaram à flor da pele. 
Aprendeu o que era ser rejeitada e entendeu que ninguém compreenderia sua pequena genialidade ou corresponderia o seu amor puro, colorido e doce.
Recebeu rispidez, recebeu decepções, percebeu que todos os seus segredos já compartilhados nunca foram secretos, foi traída de diversas formas e a cada dor o coração sangrou, a cada dor chorou incontidamente mesmo com os julgamentos de dramaticidade que recebeu. 
É verdade que também inspirou alguns amores e uma porção de afetos. E como eram pesados! Sentia-se responsável pelos amores que cativara mesmo não conseguindo lhes corresponder à altura. 
Aprisionou-se na responsabilidade de retribuir amores que ela não escolhera possuir, ao mesmo tempo que era ferida pelos amores que possuía e não recebia de volta.
Ela continuava tentando dar flores enquanto recebia espinhos e quase em nenhum dos casos houve sincronicidade.
Com o tempo descobriu que todas as suas desventuras são fatos corriqueiros na vida de todos que habitam esse planeta. Que todos passam por esses desencontros, sobras e faltas. A diferença é que a maioria se tornam pessoas piores a cada tapa que recebe da vida, mas todos, sem exceção, tinham motivos para ser quem haviam se tornado.
Mas dessa vez desobedeceu e não revidou os tapas que recebeu para conquistar o espaço que queria no meio de todas aquelas pessoas.
Se fechou, não para as possibilidades, agora adulta, Valentina trancou todas as suas expectativas dentro do peito. Respirou e considerou que receberia sempre o que cada um fosse capaz de lhe oferecer. Sabia, agora, que todo o carinho que ela possuía deveria sair de dentro de si e ser distribuído sem que ninguém tivesse responsabilidade em devolvê-lo. O amor não era mais uma matéria prima que deveria ser trocada, o amor passou a ser arte final.
Hoje ela tem grandes amigos, cada um com sua forma, com seus defeitos, qualidades, loucuras e peculiaridades. 
Mas Valentina continua acreditando que só é possível ter um único amigo verdadeiro por vez. E quando lhe perguntam quem tem toda sua confiança, guarda seus melhores momentos e seus mais secretos segredos, Valentina suspira, sorri e diz: "O nome dela é Solidão".

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Tanto clichê, deve não ser

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“Tanto clichê, deve não ser”. E não é! Embora o “Eu te amo” no meio da noite seja aconchegante.
Embora seja confortável e lisonjeiro ouvir “Não tenho olhos para mais ninguém desde que te conheci”. Mesmo que o “Eu não posso mais viver sem você” seja o suspiro que o coração dá no desespero da perda.
Quanto mais clichê menos é, menos prolonga, menos satisfaz. O clichê esgota, perde, já que se diz tudo antes de sentir.
Ninguém vai te amar a toda hora, você não ama ninguém a cada minuto do dia e não pensa na mesma coisa toda vez que acorda.
Terminar uma frase com “Te amo” como se fosse “cambio, desligo”, não faz a outra pessoa se sentir especial, nem você acreditaria verdadeiramente nisso.
Falar o que se sente é quase um grito, quanto mais se repete menos força tem.
Eu abro mão do buquê de rosas e ganho um raminho de florzinhas brancas depois de um dia difícil.
Troco o “Você é a mais linda da noite”, pelo “Tá bonita, sabia?”.
Qualquer presente de Natal, por uma conversa sincera e um olhar orgulhoso.
Qual é a graça de se ouvir a frase feita da novela? E saber que não se passa do jogo “Tá querendo ouvir, eu digo!”?
Bom é fazer parte, é dividir expectativa, é ganhar força para se transformar ao invés de “eu gosto de você de qualquer jeito”, é dar um presente no meio do ano, sem ter pretensão de ganhar outro, é dividir a conta, é chegar sozinha se precisar, andar em motos separadas e passar frio até o vento começar a te esquentar.
Bom mesmo é não precisar ouvir mentiras forçadas ou romantismo exagerado para ser feliz.
É saber que o homem da sua vida é aquele que você deixa ficar, e que o destino não tem nada com isso.
E se tudo der errado e você sentir vontade de gritar um clichê pra se sentir melhor use o “isso também vai passar”, esse funciona.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Então Repica!

2 comentários

Imagem de: http://vanessaweuffel.deviantart.com/

Não é sobre cabelo, é sobre resistência....
É não desviar o olhar, me reconhecer no espelho e me olhar nos olhos.
Não me fingir de outra, enxergar minhas marcas sem renegá-las.
É abandonar o esconderijo, seja ele o cabelo comprido ou as roupas largas, e sair à campo.
Sobre parar de esperar meu corpo mudar para libertá-lo.
Isso é não mais me mal dizer sussurrando repetidamente o que o mundo grita, concretizar o que acredito e calar todas essas ordens ecoadas, que escarram o que devemos ser dia-após-dia.
Anarquizar meu estado mórbido, pacato e estável.
Ruir as muralhas que construí para proteger todas as minhas certezas mesquinhas.
Me assumir imperfeita, composta de carnes, ossos, músculos, arrepios e luzes (acesas).
Isso é sobre a tentativa de existir com propriedade. É sobre me assumir humana, ser (um ser) vivente e pulsante.
É gritar que sou mulher... e gargalhar que sou livre.